Pedro Penim em Israel

Pedro Penim escreve de Israel

  •   O Actor e Encenador Pedro Penim escreve a partir de Israel
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    Pedro Penim é actor e encenador. Fundou o Teatro Praga, companhia com a qual trabalha habitualmente tendo através dela recebido diversos prémios.
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    Pedro Penim na peça Israel Pedro Penim na peça Israel
     
     
    O último foi o Prémio Autores 2012 da SPA/RTP atribuído por “Israel”, o produto final de uma visita alucinante ao país tornada uma história de amor. Como qualquer história de amor que se preze, “Israel” tornou-se exigente mas recompensador e Pedro Penim partiu novamente desta vez para aprender Hebraico e colocar em cena, no país que o inspirou, a sua peça.  Até lá, todas as semanas o actor vai partilhar connosco as suas experiências desde Israel.
     
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  • Oitava e última semana - Goodbye Yellow Brick Road

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    Para o Judaísmo o oito significa começar de novo. Depois de seis dias de criação e de um de descanso Deus retomou o seu trabalho ao oitavo. Para mim é também tempo de recomeçar, na minha oitava e última semana. Tempo de regressar a Portugal mas já cheio de saudades.
    Dos meus amigos, dos meus colegas de Ulpan, dos sumos do Boulevard Ben-Gurion, das corridas na Promenade junto à praia, dos restaurantes de Neve Tsedek, do Café Michal na Rua Dizengoff, do teatro Habima e da sua renovada praça, das conversas intermináveis que misturam política e religião e geografia, da intersecção entre o Boulevard Rothschild e a Rua Mazeh onde me apaixonei por esta/nesta Terra, das visitas ao Bauhaus Center, do cão doido da loja de animais no "merkaz hair", das viagens a Jerusalém no 480, de toda a cidade de Jerusalém, das horas passadas no Helena Rubinstein Pavillion a ver os vídeos da Yael Bartana, do mercado HaCarmel, de sonhar ter uma casa na Rua Balfour, dos banhos nocturnos na água quentíssima do Mar Mediterrâneo, de observar os detalhes da moda das raparigas ortodoxas, das massagens da Rua Frishman, do falafel da Shlomo Hamelech, das noites de Jaffa, do cheiro dos piqueniques de judeus e árabes no Jardim Charles Clore, dos gatos do Boulevard Chen, de comer melancia com feta, de beber café gelado, de escrever nas esplanadas da Rua Shenkin, de ouvir falar a maravilhosa e melódica língua Iídiche nas ruas, de não me cansar de ouvir falar e cantar em Hebraico, do calor das tardes na Praça Rabin, de andar nos taxis-sherut... Esta lista é infinita. Poderia escrever mais oito crónicas só a enunciar o que já me faz falta aqui.
    Regresso em breve certamente. Até porque não tenho escolha. De tudo o que aprendi nesta viagem, entre as lições de hebraico, a informação recolhida para a minha tese de mestrado, a pesquisa e a escrita para o espectáculo que vou estrear brevemente no Centro Cultural de Belém, das histórias que ouvi, de todos os museus que visitei, acho que o maior feito foi ter aprendido a não conseguir viver sem Israel.
    Ainda assim perguntam-me porquê. Porquê Israel, se não sou judeu? Porquê hebraico quando é tão difícil e há tão poucos falantes no mundo? Porquê viver em Telavive se é uma das cidades mais caras do mundo? Porquê estar numa zona de conflito quando se vive a paz na Europa? Porquê comprar guerras com os eternos desinformados, cegos e surdos, para quem demonizar Israel é tão natural como respirar, quase sempre por desconhecimento e por uma agenda demasiado blindada.
    Israel deu-me a verdadeira experiência do Outro, obrigou-me a reposicionar. Conhecer, compreender e admirar o judeu, o diferente igual a mim, obrigou-me a sair do meu círculo, a refazer as minhas ideias, a relativizar as minhas convicções. E isso é impagável. Israel, uma das chaves para perceber a minha herança cultural ocidental europeia, assunto que tanto me interessa, deu-me uma lição de maioridade. George Steiner escreveu que "ser europeu é tentar negociar, moralmente, intelectualmente e existencialmente, os ideais, afirmações, praxis rivais da cidade de Sócrates, Atenas, e da cidade de Isaías, Jerusalém."
    A outra chave, Atenas, está ainda por descobrir. Suponho que seja essa a ordem natural, primeiro os "imperativos da fé e da revelação", depois os "imperativos absolutos da razão científico-filosófica".
    Outros elementos definidos por Steiner e que confirmam a nossa identidade europeia encontro-os aqui em Telavive, paradigma da Europa "fora-de-si", musculada física e intelectualmente. Primeiro Telavive cidade dos cafés, espaço de troca e criação onde se lê, escreve e discute política, filosofia e literatura. Em segundo lugar a geografia: Telavive cidade pequena e ergonómica, de distâncias domesticadas por onde se caminha e se corre, de Jaffa até à Marina, em poucos minutos. Em terceiro o passado e o presente, aqui reunidos como em sítio nenhum do mundo. Viver aqui é habitar uma cidade tão nova que parece que tem 5000 anos: novos prédios que estão imbuídos de história antiga, situados em ruas com nomes de poetas, escritores, estadistas e heróis.
    Se ser europeu é um "conto de duas cidades", um conto entre a Grécia e Israel, entre helenos e judeus, dois pais tão distintos mas sem os quais a criança não se consegue identificar, viver em Israel é religar este esquema primordial, restaurar um vaso partido. E por isso não posso deixar de voltar.
    Mas se o caminho "para Jerusalém" está iniciado e o de Atenas por fazer, na onomástica pessoal passa-se o oposto. Tenho um nome de baptismo bastante grego, Pedro, a rocha, a força. Faltava encontrar um judaico para completar a equação.
    Comecei estas crónicas por enunciar que vim aqui desta vez procurar a minha voz hebraica. E se é certo que o meu comando de hebraico melhorou como nunca, ainda estarei a algumas lições de poder ser um falante. Mas uma palavra mencionada numa das aulas deu-me um nome, e tal como eu nomeei esta crónica segundo uma famosa canção pop, continuando na mesma senda, também o nome próprio masculino Oz, força, me soou apropriado. "There's no place like home", wherever that is...

    Termino por aqui e por agora as crónicas da Terra de Israel, paraíso para ficcionistas e realistas. Obrigado a todos os que me leram e à Embaixada de Israel em Portugal pela oportunidade e liberdade.
     
    Pedro Penim
    Telavive, 30 de Agosto de 2012
     
     
  • Sétima Semana - Concertina Palestina

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    Uns quilómetros para lá do Estado de Israel há um território tão interessante como este. Alguns dizem que, na verdade, o território é o mesmo. Alguns chamam-lhe também Israel, ou a Terra de Israel, outros chamam-lhe West Bank, designação mais secular e puramente geográfica que toma em conta a posição deste território em relação ao rio Jordão. Uma parte do mundo chama-lhe Palestina quando inclui também a Faixa de Gaza. Em Portugal é comum a distinção Cisjordânia. Mandato Britânico para a Palestina foi usado em tempos para toda a região, incluindo o que é hoje o território israelita, mas os tempos mudaram e o Mandato dividiu-se. Judeia e Samaria é um nome também comum, polémico para uns, divino para outros e ainda administrativo para aqueloutros. Outras designações, que mudam consoante a época, a ideologia e a parcela exacta de território a que nos queremos referir, incluem os nomes Canãa, Zion, Syria Palæstina, Síria do Sul, Jund Filastin e até, imagine-se, Ultramar. Aqui, muitas vezes, e creio que numa tentativa (gorada) de não ferir quaisquer susceptibilidades, chamam-lhe apenas "os territórios".
    Ora os "territórios" são a "espada de Dâmocles" para muitos israelitas, a "pedra-de-toque" para se compreender cabalmente esta região, o "leito de Procrusto", o "pomo da discórdia", um "trabalho de Sísifo" cuja resolução vai ficando para as "calendas gregas", entre milhares de outras expressões que poderia encontrar para definir um lugar (makom, em hebraico) maior que a própria vida, que tem na verdade vida própria.
    Fui isso mesmo testemunhar numa breve viagem até à cidade de Jenin que, continuando na senda das designações, é a "cidade dos mártires" para uns e "berço de terroristas" para outros, herança pesada das duas mortíferas Intifadas.
    Saberão alguns que em Jenin existe um famoso teatro que opera dentro do campo de refugiados e que advoga o início de uma terceira Intifada. Nas palavras do seu fundador Juliano Mer-Khamis, recentemente assassinado: "uma Intifada cultural, com poesia, música, teatro..."
    Talvez estas palavras possam ser lidas com desdém, talvez se possa dizer que são ingénuas. Juliano Mer-Khamis, actor e activista israelita filho de mãe judia e pai árabe, já não está cá para se defender nem para fazer valer o projecto que criou com tanta convicção inspirado pelo trabalho levado a cabo pela sua mãe Arna Mer com as crianças de Jenin e ao qual chamou Freedom Theatre of Jenin. O trabalho tem sido continuado com o apoio do co-fundador Zakaria Zubeidi (recentemente preso mas já libertado pela Autoridade Palestiniana), ex-comandante das sangrentas Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa e sob a direcção artística de Nabil Al-Raee, encenador e actor (recentemente preso mas já libertado pelo Exército de Israel). Tudo isto parece extraordinário e irreal quando comparo com a minha experiência de agente teatral em Portugal, e penso como uma profissão pode ter um perfil e desafios tão diametralmente opostos (entre muitos comuns) quando desempenhada em partes diversas do mundo. O Freedom Theatre de Jenin tem como objectivos a formação teatral de jovens e profissionais da região e a criação de espectáculos não só para a comunidade local mas também para digressões internacionais frequentes, tudo isto tendo sempre como fundo a resistência cultural à ocupação israelita.
    Era esse o sonho de Mer-Khamis, sonhado para uma cidade desoladora, onde dificilmente se vê o futuro e onde dificilmente se vive. Quando se sente, como eu senti ao chegar a Ramallah, finalmente num lugar normalizado, percebe-se a dimensão do que ficou para trás: uma lixeira a céu aberto por toda a cidade, estradas por onde mal se circula, animais em matadouros visíveis da rua, a raiva nas palavras das pessoas... um ar pesado contrariado pela hospitalidade extrema para comigo, pelo interesse pela minha visita e pelo meu país, pela genuína bondade com que espontaneamente me abordavam na rua, com que me ofereceram de comer e beber, com que recusavam qualquer gorjeta.
    Deixo Ramallah, passo o check-point, chego a Jerusalém, depois a Telavive onde me atiro ao mar e onde passo horas de descompressão a olhar para as mesmas estrelas que tinha visto em Jenin numa noite quente do Ramadão. Na minha cabeça as palavras do realizador Amos Gitai a propósito da morte de Mer-Khamis: “Existem pessoas como Juliano, que são radicais, e usam os seus próprios corpos para servir como uma ponte sobre o abismo do ódio. Ele é maior que a vida".
     
    Na Terra de Israel a cabeça e o coração passam os dias em combates perpétuos de esgrima. Ferem-se e regeneram-se. Lembram-se e esquecem-se. Ficcionalizam e de seguida embatem com o Real, para logo criarem uma outra ficção... História por cima de história, raspada e logo rescrita para ser novamente desmoronada, povo por cima de povo por cima de povo, tudo a deixar rasto, nada desaparece... Tudo "maior que a vida" nesta Terra-Palimpsesto e eu, turista que nunca fui, também eu-palimpsesto.
     
    Pedro Penim
    Telavive, 23 de Agosto de 2012
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